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"Não
Podemos Pedir ao Mundo Respeito Enquanto Mantemos Perante Ele Uma
Atitude de Ódio"
Domingo, 19 de Setembro de 2004
Para este escritor e comentador
político sírio, a melhor maneira de o Ocidente ajudar os árabes e os
muçulmanos "é apoiar financeira e politicamente os activistas da
sociedade civil" que querem reformar o islão como um todo.
Ammar Abdulhamid, 38 anos, é romancista, poeta e comentador
político. Dirige desde o ano passado o "Projecto Tharwa" (Riqueza, em
árabe), um programa que se bate por uma maior compreensão face às "preocupações
e aspirações dos vários grupos minoritários religiosos e étnicos no
mundo islâmico, numa tentativa de melhorar as relações entre as minorias
e a maioria em cada país". Falou ao PÚBLICO por e-mail a partir de
Damasco.
PÚBLICO - "Todos os inimigos do islão juntos [...] não poderiam
alcançar tanta destruição como a que foi feita pelos filhos do islão com
a sua estupidez, erros e falta de conhecimento", escreveu a semana
passada Abdullah al-Rashed, director da Al-Arabiayh. Ele defende que
para mudar a situação, os muçulmanos têm que começar por reconhecer esta
situação.
Ammar Abdulhamid - De facto. Os muçulmanos precisam de imaginar o seu
comportamento e retórica relativamente ao mundo exterior. Não podemos
esperar e pedir ao mundo que nos respeite enquanto mantemos perante ele
uma atitude condescendente, de desdém e às vezes até de ódio. Se
queremos que o mundo oiça as nossas exigências e lamentações justas e
nos ajude fazer frente aos nossos importantes desafios sociais, temos de
estar dispostos a analisar as nossas atitudes com respeito "ao outro" e
temos de condenar de forma inequívoca os actos de ódio cometidos em
nosso nome.
P - Como é que os reformistas nas sociedades muçulmanas se podem opor
aos seus regimes sem a ajuda dos países ocidentais?
R - Os reformistas árabes não têm nenhuma hipótese de êxito sem a
ajuda da comunidade internacional. Os desafios que enfrentamos são
demasiado imensos, e tanto as nossas sociedades como os nossos regimes
são parte integral do problema. Mas quando a comunidade internacional
não faz mais do que assistir, quando apoia os nossos regime
antidemocráticos, e/ou se imiscui nos nossos assuntos sem ter em conta
potenciais consequências para nós, acaba por tornar-se também ela parte
do problema.
P - Como é que o mundo pode contribuir para reduzir o apoio aos
fanatismos? Ajudando os que o querem fazer dentro de cada país?
R - A melhor maneira de nos ajudar é apoiar financeira e
politicamente a sociedade civil e ONG's. Este apoio deve ser dado
através das organizações internacionais sérias e da defesa de activistas
que se envolveram e são, por isso, alvo de acusações e perseguições. Os
governos ocidentais também têm de aprender como enfrentar activamente
regimes déspotas para evitar criarem situações como a que testemunhamos
hoje no Iraque. Garantidamente, não é algo fácil, mas pode ser feito,
especialmente quando as políticas são desenhadas com a ajuda de
conselhos de quem está dentro dos países em causa e em conjunto com
pressões da própria sociedade civil de cada país.
P - Num artigo recente na revista "Time", a jornalista Asra Q. Nomani
descreve como muitos muçulmanos hoje adoram ídolos falsos, ídolos de
ódio, violência e intolerância (como os falsos ídolos adorados pela
tribo do Profeta antes do monoteísmo chegar à Arábia). O que pode ser
oferecido em alternativa?
R - É exactamente essa a tarefa que enfrentam hoje os pensadores
muçulmanos que querem mudanças: deviam conseguir trabalhar em conjunto
para enunciar princípios claros e directivas que possam ajudar a
desafiar as comunidades de crentes e abrir caminho para uma compreensão
diferente e mais moderna do islão. As contradições entre os valores
tradicionais e os modernos tornaram- se tão evidentes que as escolhas
difíceis que nos esperam devem ser feitas tendo em conta muitos níveis.
A nossa relação com o resto do mundo - os nossos pontos de vista em
relação ao mundo ainda são dominados pela divisão medieval de um mundo
constituído pela 'Casa do Islão' e pela 'Casa da Guerra'; as relações
entre géneros; as diferenças internas de práticas religiosos e pontos de
vista; as minorias religiosas e étnicas.
P - Faz sentido falar em reforma do mundo árabe ou muçulmano como um
projecto global, qualquer coisa como o Grande Médio Oriente da
Administração Bush, ou deve-se olhar para os problemas caso a caso?
R - Acredito que o islão como um todo deve ser reformado. Mas não
penso que valha a pena perder muito tempo a discutir ideias e princípios
gerais. Em última análise, as reformas só podem ter efeitos quando se
adoptam e aplicam programas específicos para problemas específicos.
P - A jornalista Nomani fala de uma luta pela alma do islão. A
natureza do problema torna-a necessária?
R - A forma como os russos lidam com a situação na Tchetchénia ajudou
a radicalizar os tchetchenos, como a arrogância dos Estados Unidos e as
suas políticas inconsistentes face à situação do Médio Oriente, em
especial a luta israelo-árabe, criaram problemas para os muçulmanos. Mas
os massacres em Beslan ou em Nova Iorque não mudam isso. Por que é que o
islão não é capaz de inspirar formas de protesto mais razoáveis e
métodos não violentos? Há, de facto, um problema mais profundo do que
uma mera luta por problemas políticos ou sociais. E esse problema acaba
por estar relacionado com o islão. Não com qualquer coisa que lhe seja
intrínseca mas com a forma como a modernidade e o islão colidiram a
certa altura.
A modernidade é um produto de uma dinâmica no interior das sociedades
ocidentais. Enquanto o Ocidente estava ocupado a desenvolver-se e a
reinventar-se constantemente, os muçulmanos estavam agarrados a uma
forma de vida e a um sistema de valores que não mudou durante séculos. E
ignoraram o que acontecia para lá do seu mundo e as implicações que isso
teria para eles.
Só quando os poderes ocidentais começaram a aproximar-se de
territórios islâmicos é que os muçulmanos começaram a olhar para a
modernidade. Foi um encontro súbito entre duas ideologias messiânicas:
uma medieval, outra moderna. E tudo foi afectado na vida dos muçulmanos:
as relações entre quem governa e quem é governado, entre homens e
mulheres, entre grupos religiosos, classes sociais, as formas básicas de
gestão económica.
O Ocidente levou séculos a desenvolver a sua forma de vida, aos
muçulmanos foi pedido que o fizessem instantaneamente. E isso não é
fácil. Alguns responderam com rejeição e com a expressão dessa rejeição
da forma mais violenta e niilista que se possa imaginar. Não se lhes
pede apenas que se modernizem mas que aceitem a modernidade como ela
existe e como um todo. Isso é muito difícil de engolir.
P - E o Ocidente percebe ou quer perceber isso?
R - Os intelectuais ocidentais devem lembrar-se e lembrar às pessoas
como era o Ocidente há alguns séculos, como eram as coisas antes da
modernidade. É aí que está a maior parte das sociedades muçulmanas. Vai
levar tempo para que mudem. A solução é olhar para os problemas que as
sociedades muçulmanas enfrentam, para as corajosas tentativas dos
reformistas de as enfrentar, falar com eles, ajudá-los. É o melhor
caminho para garantir que este período de incompreensões e
distanciamentos que atravessamos é o mais curto possível.
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